As palavras, em seus sons, estão aqui em processo, se transformando, como esse texto, incompleto, que um dia terminarei. O papel virtual de minhas realidades, sendo escrito enquanto logo, meus dados, na máquina, na rede de rendas digitais. Nas ladainhas, aboios e encantamentos, sentimentos ou/e em outros infindos indícios analógicos, que sim, ainda existem! E resistem, a qualquer falsa ou equivocada idéia de modernidade ou tecnologia. Tome cuidado com os meus acentos.
Eles podem brincar de mudar seus sentidos.
Estamos subentendidos?

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Morte e Renascimento

O grande espirito concede
A deusa terra permite, e assim,
Banzé me relança no mundo
Iansã me guie nesse temporal

Sigo no meu intento
Mago pagão ateu cristão
Enfrentando todo mal
Trago meu grito de guerra
E de espada na mão
Invoco os ancestrais
São caboclos mestiços
Mestres, mestras,
Aprendizes
Figuras do Reisado

Lanço meu aboio
E danço em meu próprio laço
A voz ecoa no espaço
Numa melodia forjada
A sonho e aço
Em giro, num transe descalço
Me vejo: Eu sou o boi
E o capitão do mato
Meu inimigo
Esta dentro de mim
O ser humano bárbaro
Que acha que me dominou
Mas, rogo à mãe D'água
Para voltar a ser quem realmente sou
Na ansia de quebrar esse feitiço
De findar essa maldição
Refaço em canção
A reza de minha avó
A oração que ela me ensinou
Essa brincadeira, essa peleja
Começou ainda criança
E ainda nao findou
O inimigo está dentro de mim
Minha carne foi comida
Minha alma foi fundida
Com a daquele que me aprisionou
Hoje sou, e nao sou mais criança
Mas lembro de tudo,
De como tudo começou
Sou caboclo cariri beato,
pedinte cantador penitente
negro, mulher cantador renitente
Transfigurado com os traços do meu opressor
Trago todos os seus defeitos
Mas também a força bruta
Daquele que acredita que me dominou

No terreiro brincado reisado
Eu sou velho mestiço
Preta velha, negro, caboclo, índio
Senhor, sereia, menina
Rezadeira Curumim,
E refaço o caminho em mim
Daquele que me pensa
Que me exterminou
Hoje eu também sou meio branco
Mas como Chico, de alma incolor

Nesse terreiro, Mãe de santo
Me vejo em partes de tudo que fui
Agora, é hora de voltar
E consciente,
Ja sem ser mais inocente
É minha a responsabilidade
De fazer e disseminar poesia
Mesmo com toda dor,
Estando alem do sofrimento
Daquele que sente que me derrubou
Na brincadeira, assim como na realidade
Eu ja fui, hoje não mais sou
Aquele que me feriu.

Como o boi,
Morro e renasço
E assim refaço
Meu destino
Tendo que ser
Meu proprio mestre
Me ensinando o óbvio

Amor
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